domingo, 30 de julho de 2017





mais que um recém nascido já chorava
 - antes do mundo (me) doer.

30 de Julho de 2017


chorando outra vez ao som da mesma canção

Perguntando-me
"- como se fazem os lutos"? *
como se terminam as coisas na vida que não têm forma?
que não têm tamanho, nem sabor, somente uma essência
a nossa não denomino, por nenhum nome,
(tal como) não chamaria deus por nenhum nome
catalogando-o num só som
somente e só uma palavra aberta que a tudo remetesse
de inefável

amanhã foi nada
amanhã foi nada
mas sorri porque foi (quase) tudo

primeiro, as comportas quebram-se
depois, ordenam-se, para um novo dia
(no amor sem fronteira, no amor sem espaço nem tempo)

tu nunca morreste verdadeiramente, repito
nunca morremos verdadeiramente
agracia a dor - sinaliza profundidade

sinaliza o abandonar vazio da ideia de céu no teu peito
mas ele está lá
sempre esteve, apenas te esqueces
pelas ondas à superfície de humano, de animal
um abraço que tudo purgasse, um beijo que tudo esquecesse

e tudo finda mas nada vai morrer
dentro de ti
nem tampouco matar-te
porque és da substância dos deuses e dos homens
casados num misterioso dia em que choraram pela primeira vez

e todo o passado se ergueu, se sacrificou, se esvaiu
em lágrimas e suor e risos
e tudo foi sempre um tropeço,
tua pele regenera por cima das feridas

sorri porque não há tempo para pedir tempo
não há tempo para dúvidas
no palácio da oração do coração contra outro coração
entrelaçados por acidente
mas somente firmados pela vontade e pelo amor

sorri porque ontem te levantaste de um sonho mau
tiraste-lhe a máscara, despiste-o de peso
era só um farrapo, véu menor, dor menor
ponte para te lembrar do teu ser
porque tu és sozinha antes de tudo o resto
tu, tu não te esqueças de ti, no dia da tua maior luz


a memória é somente uma história
a memória não te pode ser poço
não te pode ser fosso, roubar-te
de ti e deste sol preciso

mas claro que te dói - essa ideia de casa
e a melancolia tomar forma numa razão real
numa despedida real

(como se acaba? como se lembra de nascer
depois de estar viva sem memória das pequenas mortes?)

não dês razão à melancolia
não dês razão ao peso nas tuas temporas
são só cascatas na pressa de quebrar
na pressa de te reunirem à longa maré humana
entre a espada e a parede, escolhe sempre a espada
não fujas da dor que te cria e expande e apreende
tu respiraste melhor depois da tua maior corrida
tu, tiveste mais energia ao fim desse dia

diz adeus à forma mais inocente de negligencia
purga-te no teu karma e vive

demora, mas nasce
demora, mas nasce.

( a dor vai ser sempre um poema)


MF

*  (e ninguém responde, mas sei que sei sem saber porque escrevo depois do sangue)














quinta-feira, 27 de julho de 2017




Escrita automática

27 de Julho de 2017 
1.43h


adoro a loucura
fluidez ininterrupta, estilhaço na veia
vislumbre de cura 
terrenos espumosos, desvios insidiosos
altares de ternura 
pedaços de pura (intuição ) 

  saber-me rendida, numa cruz pendida,
num farol obscuro eu vi:
as areias fazendo-se mar
a justiça traçando o eixo
o medo, trejeito da enevoada loucura contra o espelho
eu vi eu caí eu sorri
eu cai eu chorei abandonar-te antes de te abandonar
por fingir ser humana
despi minha loucura
despi-me para te beijar
e fazermos sentido
mas só carne não me enaltece o espírito
não me rodopia aceso o espírito 

contra o infinito
eu vou amor, eu vou de ti até mim outra vez
minha loucura esteve fechada, em mofo e fétido ar
não me olharias se te mostrasse
  o sem sentido ouvido e sofrido
  o sem sentido sentido pressentido em vagas palavras
caos conducente, caos amorfo, caos labareda
eu quero mais agora que o teu corpo
eu quero uma totalidade circunscrita (na carne)
eu quero que me leves e tragas de volta firme

 - na minha loucura.

*

Ardemos juntos no fogo
sangue contra sangue
grito contra grito
mas que fazemos depois? 

 - no silêncio do mar minha alma sangra 
da ferida entre-aberta do mutismo entre nós.



MF


segunda-feira, 24 de julho de 2017




dava-te o meu céu e quanto ao inferno
atirava-o para ontem
e roubavas-me de ver amanhã
firmavas-me aqui
garantias-me cada segundo com os teus olhos
 - que estás aqui,
que estamos juntos além do espaço
e mesmo na solidão de nós, estamos um com o outro.








23 de Julho de 2017 ( Diário)

"  - Leva-me ao colo, disse, - se adormecer."
E tu levaste-me, os meus olhos fechados, levaste-me e estas cenas perfazem a vida. Ou tudo o que importa nela - o calor. o amor, simples e sinceros.
E eu virei-me no escuro para te agarrar. Estava frio dentro da cama. Quis ouvir-te - teu sangue, tua respiração, sentir, teu calor. E o desejo cresceu como sempre cresce nas noites. Mas o cansaço do dia era maior e então fundimo-nos de outro modo: do modo mais humano, afinal, do modo mais amor, afinal - além do frenesim da carne e do sangue de outras noites; a própria candura do céu feito no toque abraçado de dois corpos amantes em silêncio, no precipício calmo e hipnótico do sono.
Sei quanto te amo, mais hoje que nunca. Amo-Te. Não preciso de dizer o Teu nome. E se bem que as lágrimas sempre permaneçam dentro eu sou mais feliz que nunca. Felicidade como um tesouro permanente que tenho em nós, por mais oscilações emocionais que existam. Eu sei. Mas quero aprender contigo - a transcendência do medo e do apego. Tenho medo de não me lembrar de mim sem ti.  Quero um apego com memória de mim e do meu espírito. Quero um apego sem dor. Quero um apego livre no seio do Amor.

Falo da noite mas que dizer do dia? Tinha saudades de me rir assim contigo, como o vejo agora na memória. Não vos posso escrever as imagens. São das mais simples. Somos só nós e chega, não há ciência, não há linguagem e eu quis que houvesse só para sossegar, esclarecer, a minha razão. Tenho medo, escrevi nos primórdios, mas quero sentir assim. Assim mesmo como te sinto mesmo que me doa às vezes. Sentir tanto. Querer explodir, êxtase, alegria e por fim a calma desse mar. Saber-te precisamente onde eu estou. Estarmos juntos além dos corpos. Estarmos juntos na frequência irrepetível do sonho vivo de Nós.


MF e  minha tentativa de escrever a felicidade.
to TS

sexta-feira, 21 de julho de 2017








Memorandos 21 de Julho


(escrita semi-automática, 2.30h)


eu queria gritar no silêncio as visões perdidas

os pedaços caídos
as visões estendidas
o lençol de cores da minha-tua memória
e saber-me ao teu lado é o mistério que não compreendo dentro
e o mistério onde me afundo fora
ignoro profundo (?)
cai-me, o coração, mas eu ando pelos dias e vou até à ti e se apenas me segurasses de saber quem sou, se apenas me olvidasses da profundeza que me dói e amo pois nela me fiz 
mas não entendes? - esta lágrima atravessada na minha idade. esta lágrima peso bomba. cascata sem lágrimas. este céu triste no meu peito. este paraíso adormecido sem lugar aqui. eu escrevi-Te. e escrevi minha partida e escrevi minha (possibilidade) de chegada. eu escrevi (me), minha alma, e deixei-te os versos na tua mesa. aí mesmo ao teu lado. passaste sem os ver? dormes sem saber?- sobre o meu amor. sobre a minha alma. num sono que nada tem de poético, num sono que não me assenta no meu peito. procuro, vestígios urgentes da tua alma depurada em horas solitárias. procuro-Te a ti, vendo-me, lendo-me, pausando-te da superfície e do velho mundo que conheces desenhado a quatro paredes e um ecrã.
estou ao teu lado e não me vês. navego no mar profundo que cavei esperando achar. amputada do que não sei tentei agarrar uma mão, tua mão pintei de mão-deus, tudo em ti pintei de esquecimento e salvação. porque és um corpo feliz de silêncio. mas preferia ouvir-Te. preferia que te animasses de espírito a animar-Te nas notas tristes do meu sonho de alcance e trespassamento e fusão.



nada me resta a esta hora senão segredar-te, debitar-te a loucura que não conheces nem poderias saber. isto que dói sem Te poder dizer - o mundo e teu silêncio. o mundo e teu silêncio. o mundo e tua ausência perfazendo mais mundo, separando-Te de mim. queria Te de mim. queria Te da minha alma, queria Te fora deste mundo no paraíso nosso onde falamos noutro silêncio.

gravuras de vidro, oceanos estendidos entre mim e tu. impossibilidade perdida e refém de despedidas. eu vi finais em vida. eu despeço (me) (d)o calor pelo quê? eu sou humana mas primeiro sou o quê? para Te mandar assim embora de mim? (porque) primordial em mim esta lágrima que não se aguenta sozinha junto à ausência de ti contra mim. queria Te em mim. tenho as páginas escritas a sangue sobre a mesa e não as lês. estás acordado agora e não as lês. adormeceste outra vez?
bem sei dentro de mim que o que vejo em vida nunca esteve acordado, só dentro e é tudo, dentro e não chega.




*

eu vejo uma criatura tentando fundir dois eixos de dois mundos. um deles é muito denso, pesado, profundo. e apaixonou se pela leveza cega do outro eixo. e o casamento deu-se no sonho, mas (quase nunca?)/não na vida.
a felicidade dava-se nos bastidores amantes, nos bastidores sedentos de realização de outro amor. amor transmutante. amor asa delta. amor sentido até ao ínfimo, último grão, estádio de sentido. sentido em cada gesto, sentido abraçado, beijando cada eixo. 
o ferro rendido. vergado. fundido. 
essa crucificação, surpresa atónita, essa palidez mortal, dissolvida para sempre no sonho (sono?) profundo da alegria.



MF






terça-feira, 18 de julho de 2017




Memorandos Julho


13 de Julho:

Antes sequer de me tocares és
-o meu paraíso mais humano.

17 de Julho (madrugada):

Vai-te doer tanto - a memória
mas fecha os olhos - no quarto escuro das essências
que vês nele que aprendas? que vê ele que transcenda? o corpo...)
não entendes? a pergunta última - se faríamos também amor - com as essências
mesmo o teu olhar é ainda corpo, é ainda rosto
quão cegos estamos, pelo corpo?

*
Amor, preciso de ficar sem ti para criar (em som) - o palácio triste da tua ausência
Amor, (às vezes) és tudo o que deturpa o meu espírito
a incompreensão de ti, a sede de ti
Amor, tenho tanto medo de só sermos corpo
(o espírito em mim apagado pela carne)
Amor, ver-me ias sem corpo? com os olhos doutro rosto, o Invisível em mim?
 - as perguntas que faço, a profundeza que assisto, o cristo em mim, o demônio em mim, a criança em mim
ninguém compreenderá, Amor?
Então talvez fique sem ti porque me doa essa ausência inocente de ti além corpo.
Amor, só tens sono, cansaço, perto de mim? Amor, tens a memória do início do (nosso) amor?
 - agregado desconexo de memórias sempre pontilhado, atravessado, por uma lágrima
tom de lágrima que nunca viste, tom de lágrima que aponto com as palavras. Inexistente metáfora. (Quão mais é inexistente nesta viagem? Só dentro a intuição, a sinestesia, o carrossel de poesia?)
Deus sabe - como te agarrei algumas noites. Tu sabias? Enquanto o fazia, tu estavas em nós ou sempre em ti?

terça-feira, 4 de julho de 2017




(Mutter)

Que te dizer? Talvez tenhas- de cair mais fundo
cair mais dor, cair mais longe, cair mais perto,
de ti

Jurei no mar que a lembrança só se faria sentido
com as lágrimas embebidas no riso
de um sonho maior -

de que amanhã serei eu mais velha com os pés na areia
e uma criança agarrada às minhas mãos
(e a inocência sempre vence,
as máculas dos chicotes nas suas costas)

Acordei um dia, não me deixes adormecer
não me deixes esquecer, isto que sei sem saber (dizer)
de onde veio, quando veio...
(talvez) ao fim de um dia com a melodia no meu peito
e o céu a silenciar o sobressalto dentro

Mas às vezes peso, às vezes carrego, não danço, o meu coração
que te dizer? o mesmo que a mim - talvez tenhas de cair
quebrar, chorar,
despir, as velhas peles, expor, a carne nua, crua,
porque a purgação é feita, mãe, das chagas e lutas e feridas
então não te segures de cair, se ainda não és inteira
não te segures de cair,
deixa os pedaços pelo chão, a cozinha desarrumada
a tua alma partida em hemisférios distantes
sempre te encontras, a sós na dor
inteira no amor
inteira na contemplação
nua de ti, despida de quem és
se quem és hoje treme diante o mar e a vida
podes tremer, mas treme segura, treme inteira, de ti
podes tremer, podes sentir (deixa-te sentir)
mas amanhã Respira
amanhã olha as aragens que te ocuparam
tua vida é a tua mensagem, disse
então tem cuidado, de saber calar, de saber ouvir
então pausa,
observa,
respira, depois da turbulência
do teu medo, do teu amor, da tua dor
o clarão de ti, como nunca te viste.


MF



terça-feira, 6 de junho de 2017



Memorandos dispersos:


suponho que inventaste lugares para viver
e cada decisão fora duplamente arquitectada segundo inconscientes diretrizes da memória
tu sabes- como se nos gravamos num só dia
e os mesmos lugares onde fomos ontem orações são os lugares amanhã expiados
vejo o rio e a terra batida
vejo aquele banco que sabemos
eu ando carregada de memória
e eu queria os meus olhos sem o peso da memória
se fôssemos as penas leves sem o caos de ontem
se fôssemos as águas pálidas sem a tentativa do eco
eu quis esmagar todo o tempo para me firmar aqui
e sobre as lágrimas indecisas entre o voo e à queda
eu escolhi voar
das tumbas inscritas com o teu nome
não soube não saber ser humana sozinha, lançada aqui em queda livre
eu perguntava como preparar o chão estando em queda
como preparar o chão sem rédea no coração atraído pelo abismo de todo o tempo passado ontem
até que vi que não havia chão que me quebrasse
que o chão era a vida ao meu encontro
e o sentir do chao foi uma névoa que eclipsou meu medo
eu senti
eu senti que doía sentir
e divorciar me das imagens, divorciar me do tempo na minha esteira
mas houve também o fulcral ar ,arejar da alma, como a corrente atravessando uma porta para hoje e amanhã
eu vi
que o coração também sabia
esquecer sem esquecer
esquecer separado do sentir
e estava livre para uma âncora
no hoje e amanhã


*
poderias reter o sangue
e as luzes e as águas desaguadas num terminal sem tempo
uma foz de bronze, eterna, de sal
poderias despir as trevas desassossegar o magma e ver te a mil anos de distância
e quanto recobres do teu ser?
no limiar da lembrança ,da tua i)mortal esperança,tu não morres
tu não morres de ser vazio
tu concorres às máximas luzes
e anseias somente teu fim
agora o coração descansa enquanto o silêncio dentro te exaspera por sinais que não sabes
uma memória, baque surdo no rés do chão da tua alma
interpelação de anjos e demônios
segura me aqui, vida, amor, sossega me ,cura me, do que eu não sei
lambe me as feridas
dá me as canções da memória sem os feixes brutais da mais-que-nostalgia
não me deixes a chorar sozinha, não!,deixa me a chorar sozinha, mas quantas vezes mais? quantas vezes para me sinalizar humana perante tudo isto, perante mim? eu tinha de ser humana no meu quarto, eu tinha de fechar as cortinas para me ver
e acordar outra manhã e respirar no frio da neblina e o sangue correr outra vez
agora quero
agora quero
matar em mim a fera solitária dos umbrais da indiferença
os olhos fixados num reflexo distorcido
agora quero
a abertura expansiva para a luz que fui, vi, entrevi. a explosão do mais candido amor dentro de mim.

*
as imagens que não calas te param no pensamento
giram em torno do mundo
desces
que ves que já não saibas? caminhos infimos no estendido tempo que viveste sem saber
podia ser hoje o dia do teu nascimento
podia ser hoje o próprio dia
da tua amarga despedida

automatismo cru
uma espécie de violência
e submissao abraçada
distender de céu e magma
esquecimento, esquecimento, todo o extâse humano na ponta dos teus dedos
no arquear do teu corpo
fusão
transfusão
metáfora viva
sonho grito riso
respiração circulação
arrombamento acordar caído, inebriado, dos sentidos
fecho os olhos para estar contigo
fecho os olhos para estar lá
onde não sabemos não saber
onde somos o fluxo vivo circunvago, de uma gloriosa ausência
de nexo e perguntas e imagens
é cego ver . o não espaço grávido de instante e cornucópias de luz
é não ter mãos com que te agarrar
é arrancar te
é a única violência clareada e candida e bela e magna
um dia houve até sangue nas mãos, essa violência , saque , intromissão autorizada
sangue nas mãos e um verso sobre haver uma sagrada verdade no sangue
e nos limites, superfícies, carne, sangue ou magma,
no suor, na criança tremendo entre o medo e o desejo

(dedicado a M.Duras)
*

o Ser ouviu
- nunca Saberás, mas é enorme.
nunca Conhecerás,
somente a cifra que Te diz que tens de persistir'
-contra as correntes, contra os elementos, contra o passado se abismo, e o futuro se abismo
porque encontrarás céus aqui. onde deitar a cabeça
céus de placidez, céus sanguíneos
na berma do grito ,da loucura, nascerás outra vez. e saberás o nome do peso nas tuas temporas. e porque não dormes. o que não cessa em ti quando tudo deve cessar (para dormir) e o sentido dos sonhos. sua decifraçao ante o apagao. os quadros os leitos, a reforma a carcaça, a perdicão das cidades que não conheces. a tua lucidez encoberta. a tua lucidez (re)descoberta. o ápice a tontura, o choro onde apanhas o feixe que te abre e cura . ela está a acordar outra vez. para Me dizer .( o quê ?)

*

Eu imagino que serias
A bela Inexistência dando à luz
E teu sinal um toque que expandisse meu coração
Eu seria então tua graça num corpo viva.



*
Eu não sei viver aqui porque sinto mais que saudade pelo que acabou de passar
Às vezes sinto, Houlden, ' Saudades de toda a gente' saudade não sei de onde, saudade sem lugar. A lágrima é amar esta pertença à terra, e olha la estrangeira tantas vezes.
E choro sem saber porque choro
Talvez esteja morrendo na antevisao de todos os fins e esquecimentos que se querem impossíveis. Talvez esteja sofrendo na antevisão do que não sei , do que não vejo.
Não sei se morro porque outra parte de mim viva em alguém que me amou está morrendo longe de mim. E é a sua forma de me ativar a sua ausência


*


és tão pequeno quanto maior o tamanho da tua arrogância
Seja qual for o caminho ,que não esteja no caminho da vida mais simples. Tem de estar imiscuído na vida, nunca fora desta de forma implacável. Encaixes inteligentes, ajustes, flexibilidade, navegação

*

.Es sufocada pelo infinito nos teus nervos
Pelo que ainda está em espera
Pelo que ainda não é tem de ser
31.10

*
Se no fim olhasses para trás- tua vida a contagem decrescente de um semáforo
Saberias- que foi um teste tudo o resto que não a solidão e os poucos olhares humanos
28.10
*

Se soubesses morrias
Colapsarias, com o infinito nos nervos
Então descansa, criança, então fecha os olhos para o que não podes ver
13.10

*
Obrigada por me relembrares
E dizeres que não são pedras mas ondas
E devo assistir às ondas e trepar mais paredes para desmentir uma voz medrosa. Porque eu sei que sou luz e força, no centro de mim. E o teu abraço alcança me, obrigada
7.10
*
esta vulnerabilidade ancestral
este corte umbilical de infância
já não tenho um deus
nem minha mãe me pode segurar porque sou pesada
então coloco o meu coração em braços humanos
*
E tenho um sonho quase maior que os teus braços
Respeitante não ao ego mas às mais altas esferas do meu espírito. Poderei dizer te no entanto, que és as asas da infância mulher dentro (outra vez) de forma ainda mais bela. O desejo emergindo, a electricidade percorrendo o corpo. Tudo é inteiro e polvilhado de novos sois e paisagens ,lembranças de primaveras nunca desabrochadas. Es a flor e a calma e a simultânea tempestade do meu sangue. Mas ainda assim, paras me para sempre num campo onde a vida é simples e não tem tempo para cruzar uma alta esfera. Eu queria compor mas fico sem tempo para ti

*
E eu não sei porque hei de mas hei de- chorar sempre na esteira da beleza. Eu choro de ser feliz porque vejo chão de vidro sustentando essa casa. E a primavera é só uma de quatro estações. E há uma quinta, onde me recolho. E componho os rastos, provas, da tua passagem em mim. Transmutamo nos.
*
amo tanto quando sorris
amo poder estar dentro de tudo em ti
podermos ser, um no outro, um ao outro
não sei como cheguei até a ti
mas amei ver nos chegar.
*

Eu sonhei com o ar puro
Bicicletas na estrada
Balões nos corações
Eu sonhei 
Com os espíritos puros

*

E dizer-te - que me vences sempre mesmo quando eu fico.

Então eu sei
Que nunca acordo quando nasço
Nunca acordei de ter morrido

*

doem-me as vidas não vividas
efusivas, mais que vivas, aureolares
dói-me a latência ardente das projecções possíveis e impossíveis
dói-me o sangue com memória nas veias
dói-me isto que sonho e sinto e vejo sem corpo
são miragens no ar e olha o tempo...
olha o tempo largando-te a pique sem tempo
imaginaste a vida toda num só dia
a grande arte do espírito- viver o momento que se morre a si mesmo a cada instante,
e o sorriso cheio porque és de fogo e incendeias o próximo instante.

quero-me. desdobrada, tão alta depois de vencida, liberta


*











quero ser Cristo
sem ter de morrer na cruz.

segunda-feira, 5 de junho de 2017


5/06/2017 
3:41h


Paulatinamente descrevemos círculos oratórios.
As aves do meu coração tentando chegar-te
e bati-te à porta, -
'não me ouves? não me atinges, atravessas, mostras,
o meu próprio sangue revirado das minhas próprias entranhas 
que secretamente, solitariamente entrevejo."

as palavras ausentes
as palavras mais prementes

eu volto para casa sabendo me presa e sozinha na (in)compreensão de mim
acho que são passeios e itinerários que teci
rotas cuidadas,
desígnios cinzentos,
um caminho mas especulação de molde de quatro pés ou uma só pegada,
(um Cristo carregando-me)
 e achei-me vazia e transpiro anseios não seculares
anseios de verdade, anseios de sagrado
que me doem as pálpebras
na esteira de ontem, hoje e amanhã
num promontório vão e quebrado
queria limpar os meus ossos
da ferrugem corrompida da inocência trespassada nada-viva,
e a sofreguidão do instante, outra vez, no sangue
eu queria galáxias humanas atravessadas na minha solidão

eu chorei:

as palavras ausentes
as palavras mais prementes
(de todos os humanos que amei (ou pensei senti querer amar)

Descreve-me, deita-me, lança-te
ao meu corpo como me lancei esquecida e super-sensiente da espacialidade infinita do meu corpo(sobre o teu) a fundir-me até apagar-te a memória, fundir-me até me escreveres no sangue e na carne e no sagrado que sinto saudade sendo humana
eu não sei de onde vim mas sei quanto choro
(eu não sei quanto Vi mas sei quanto oro)
se me agarrasses e respirasses como te expiro e inspiro na cadência do divino
 a sapiência possível do corpo com a razão decepada,
 todo o Amor rendido
 todo o falso amor esmurrado
 pela autenticidade de no mínimo um em dois.

 Perdoa-me se Te digo que não estás lá e eu danço com um fantasma. Abre os olhos, pára-me no rosto (pára me no sagrado), respira-me outra vez, daquela vez, daquela vez…
não sabias de ti. nem eu de mim

MF

to TS


Eu hei-de escrever um poema
Sobre o teu corpo branco debaixo do meu
E ser mulher agora
Ser lembrança, amanhã
Eu não sei como as pólvoras retornam à quietude do não ser
Por enquanto, elas explodem no meu corpo
E eu só sei quão certo é o fogo
Quão reconciliado é o momento
E o desejo não é teia
O desejo é a vida inteira
A propagar-se, imiscuir-se
Por cada pedaço de corpo
E a minha voz sem palavras
Atravessa o quarto
E juro-te que não sei de amanhã
Nem de ontem,
Somente agora
Apenas uma vontade de também não saberes
De amanhã ou de ontem
Somente agora
Então agarro-te noite dentro
Pela vida que em mim há eu juro-te ali:
 - Que eu morri algumas vezes
mas essa dívida saldou.

To TS
*

Depois de entender a vida, hei-de entender a morte, eu tenho o coração grávido de querer ser luz. Eu hei-de rir, mais do que rio hoje. Eu hei-de voar assim como os bandos ao fim do dia. Eu hei-de rir das paredes mudas e dos rostos vazios.

Sensualidade é um conceito corporalizado, disse. Se soubesses os céus nos lábios e no aperto, e já não sei quem fui…

Só tenho medo que um dia não tenhas nada para dizer. Medo do silêncio vazio entre amantes. Medo do medo. Medo de quebrar a promessa que fiz a mim mesma : a honra, a vida, a transparência pura da verdade.. Num qualquer acidente do espírito, fossa escura e densa, abismal, perder-me nas areias do cansaço. Quando fui explosão em pólvora lenta e total. Agora ouço. O som que me fez chorar a olhar para as estrelas. Quebrada pelo amor. Salva pelo amor. Amor, que nos fizeste, eu não sei se te sei mas sei que te sinto. E se te sinto, se te choro, se te oro, se te envio esta imagem de mão ao peito, de tarde límpida e pura, coração acalentado, coração abraçado pela existência inteira, não um universo frio mas um universo cálido de luz, Acredita-me. Uma nota lenta que desce até ao coração, e a melodia outra que fazemos em conjunto, com o fundo de segurança na memória mais funda do coração. Eu canto. Eu danço hoje, às portas de uma manhã sem fim. E as palpitações rápidas já não são das corças perseguidas sem esperança. São as veias insufladas de um sangue novo e puro, criança. Desaguada nas veias, a vida, a mulher, a criança, a criatura absorta agora, porque ouve - o silêncio de paz nas entranhas do mundo. E como todos os jogos e ficções à superfície não acordam esse silêncio da sua quietação intemporal. Não calam, não vencem, o benigno, a esperança, o amor.

Eu juro-nos – um dia fomos um dia feito de lágrimas confundidas com riso. Fomos tudo sendo vida, e na melhor das hipóteses, se nos doermos, sejamos uma primavera assim, atravessada por uma lágrima que nos sinaliza no caminho sem fim de aprendermos a ser humanos. No amor. 


MF