segunda-feira, 3 de abril de 2017




Eu não sabia do devir.
Do sangue

Caiada ontem num apagado quadro
 de floresta e névoa

Eu não sabia do devir
Do sangue

E como este sempre vem do mais fundo
da vida

Eu não sabia do devir
Do sangue

(e então chorava)
Criança, carreiros solitários de poesia
e silêncio fora
tentando o sentido dentro
do dessentido de ter sido
o amor embebido em ruído

Eu não sabia do devir
do Sangue

que me trouxe a alma
que me atravessou a alma
que me respirou-inspirou a alma

Eu não sabia do teu rosto, do teu nome
da tua brancura
do teu corpo, amor
eu não sabia que podia voar
depois das feridas entre-abertas
eu dizia que a tristeza era uma gravidade maior
que aquela que nos prende à terra
ela prendia-me somente
a um plano sem tempo ou lugar
levava-me o coração, amor,
e deixa-me o corpo a pesar

Mas eis que então chega o Dia
em que chegas, sem saber,
à minha existência muda e ferida
à criança que não podia ser mulher
até ti.


(Ninguém nunca sabe do devir
 - é a Vida.)


MF

dedicado a TS






quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


caminhámos em noites despidas de lua magna
e chorámos de não ver luz
eu sei que doeu - veres o amor ruir
às mãos de quem não soube nunca que este era
- todo o sentido desabrochado em flor;
eu sei que todo o ruído do mundo nos oprime
a nós, crentes na transparência pura da verdade
entre dois olhares, e silêncios cheios;
não tenhas medo, que a vida nunca se esquece
e eu disse: havemos de falar no silêncio
as coisas que temos medo de dizer,
e sei que és atento
a todas as lágrimas
que não quis fazer entrever
e és uma tocha acendida no altar da esperança
e o teu coração fala agora por ti;
eu sei que doeu - veres o amor ruir
eu sei quanto dói sentir,
seres-te,
humano
mas acordamos sempre, voltamos sempre
porque dizer "sim" é tão maior que cair,
e afinal sempre houve, uma mão, um beijo
futuro que se fez presente,
em forma de céu nunca ausente
olhos fechados, o espírito  aberto
(se eu pudesse dizê-lo,) 
a vida inteira sussurrando:
 - podemos ser em vida, todos os sentidos
no amor.



*

bioquímica ou as asas desencravadas da carne
(bioquímica e o céu mais humano aqui na terra)
e na lentidão supersónica e sanguínea de um beijo
estamos distantes de toda a morte
e próximos de toda a vida
e o tempo é outro, sem ponteiros ou relógios
é uma grande a(mar),
e para sempre é tão perto.
a vida é tão perto - de nós.



To TS,
MF

listening to Slowdive

- erik´s song
- missing you
- changes









quarta-feira, 11 de janeiro de 2017



posso-te dizer que as lágrimas, essas, são sagradas
o licor dos anjos-humanos mais caídos

e que as asas estão a uma lágrima precisa de distância
que te sinaliza vulnerável perante ti
e te faz pedir por um abraço humano

somos tão grandes de tão pequenos
cuidando de seres tão mais pequenos que nós
esquecendo nesses momentos a nossa própria fraqueza

ser humano é muito.
chorar é muito.
chorar é grande de mais para negar
eu faço um hino ao ato de chorar e realizar,
no sal,
o sentido da dor de chorar

posso-te dizer que as lágrimas são sagradas
e o sagrado firma-me aqui:

     à terra, ao humano, ao quebrado, ao distendido,
     pelas forças silenciosas que se operam dentro de nós
     e não têm nome às vezes,
     nem rosto que possamos reconhecer familiar...

( não tenhas medo: o que sentes? onde sentes?
és afortunado por sentir
e chorar)

talvez nos doa mais tudo aquilo que herdámos sem saber
e procuramos no outro um reflexo, um eco
para lembrar que não estamos sós.

eu ajudo-te a carregar os pesos
eu digo-te que sempre voltei, das viagens mais atribuladas e distantes
algo na costa me chamou. um presente ou um futuro que já é.


MF, to TS.



terça-feira, 10 de janeiro de 2017



sinto outra vez o peito despido,
e eu fui cantadora de sonhos
sinto outra vez o peito a cair,
e eu sei que há alguém
para ouvir as minhas notas e cantar-me ao ouvido
as coisas que já não ouço

e dizer-me 
és apenas humana então chora
mas volta
não te esqueças de voltar
e calar os gritos cínicos de quem morreu e ficou ocupando o seu espaço
e todo o espaço dos que sonham, com os seus medos

pai, eu quero viver,
e sou ainda a tua criança se me deixares partir
eu nasci com olhos gigantes e lembranças de paisagens que esqueci
e estou vagueando dentro e em torno de tudo
esperando o sentir plácido e glorioso do sol e das cidades a acordar

pai, eu quero viver,
no mais fundo da melancolia minha que nunca soubeste,
eu quero viver
e chorei tantas vezes sem saberes. e ri tantas vezes sem saberes

há uma nota*, outra vez, que me faz chorar
foi ela que me encontrou enquanto pensava numa mão
mais que humana
quando só o humano me interpela e me faz ficar,
mas eu chamo às vezes
por coisas que não se formam à imagem da razão e são outra coisa
mais que humana

eu não quero morrer, sem primeiro ir embora das terras
enlameando os meus pés
pai, diz-me o que calas quando estás imerso dentro do teu próprio abismo
diz-me se te doem os lugares aonde não foste
e se sofremos não morrer da única morte aceitável - o amor
que nos emerge e submerge, pelo mais alto, pelo mais baixo;
diz-me o que dói, quando dói, aonde dói
não  te abandones à morte e não ma dês de herança
cantam-me canções dentro. elas vivem no seu ante-ser
e o meu eu maior salvando muitas vidas, não gostarias de ver?

eu tenho um sonho ainda, morrendo nas cinzas
da tua mundana descrença
e soluções pragmáticas e lógicas
e deste-me quase tudo para florescer
menos o sonho que fui beber
a paragens tão longe do meu berço

e sonhos tão humanos pai, tão maiores que sonhos de criança
sonhos de amor, música, poesia
um mundo um pouco melhor do que antes de chegar
ingénua, criança louca e inocente, aqui é o lugar dos becos dizes
onde não posso caminhar
à noite
sozinha, menina,
pões-te a jeito, dizes, e só fazes o papel de todos os pais
mas sê, por favor, o meu pai
e vê para além da desrazão do medo
e seu veneno que nos cria raízes no seu solo-bolha
que nos prende a uma casa pagada com o suor dos nossos corpos
e o tempo precioso das engrenagens criativas
das nossas mentes
e corações.


MF


*
https://momentumf.bandcamp.com/album/rites-of-passage
More than a human hand , minuto 2:58-3:00









segunda-feira, 10 de outubro de 2016




Foi a dor de saber que não existias.

(agora que penso: deus confunde-se
com o pueril amor.)

domingo, 9 de outubro de 2016







eu não sei explicar como estranhamente incorro
para interiores de perdição

e não expulso as imagens que me queimam

estou encadeada pelo seu brilho invertido,
opacidade, magnitude


estranhamente me lanço, pairo sobre a sombra
a morte, a decadência, a destruição
até à limpidez dos ossos
e há nada
e descubro que fui nada
e serei nada outra vez
e no espaço entre os nadas só há um nada onde não cabe o medo
um nada que não sei mas sei que não há medo
um nada com a semente espacial da vida

ocupei um nicho, uma linha lançada no infinito
eu irrompi não sei de que raízes, como sol fervendo
e hoje tenho gravado todo o passado humano
nos estremecimentos humanos
no pânico, nas visões quebradas com remates num beco
onde a razão embate e se desmorona

e então só me canta dentro uma voz sem nome
não é música nem palavras, não é voz, é um nada falante
e permanente, intemporal,
coisa que atravessou o universo
comigo sem eu saber
somente reconheço um eco
eu sei que sei
mas não sei saber
eu sei que sei
mas não sei dizer,

(então saberei?
se a candeia acende e se apaga no próprio instante em que se acende?)

e há somente uma nuvem, e esboços de pontes flutuantes
na aleatoriedade de um espaço infindo

veio de dia a resposta a todo o corpo, dissipando-se
mas eu vi na fulguração-apagão de tudo
acho que foi no mar
e numa noite se operou o milagre
e então acordei com a cabeça liberta
e sou meu corpo como minha alma desperta

(mas eu esqueci como viver nessa resposta)

os dias estão estendidos agora só para me ver, despir
camadas e peles que não são minhas

eu não sei se sei mas tenho a certeza
- que eu escolhi ocupar-me, ser-me,
meu outrora nada para luz ser.



MF











Memorandos


6.10.2016

18.57

Eu sei que não me deixaste nas minhas mãos
eu só não vi que as minhas mãos eram as tuas.


7.10.2016

8.33

Debato-me na sombra e mais ainda na luz
não é a primeira vez que vivo nem será,
certamente,
a última.


8.47

Esquece-te abandona-te às palavras.
De que tens medo? Escrutínio do interdito que te aparece vestido em sonhos?
Dissolve-te nas runas, no grande fundo de sempre
e toca as mãos de mil humanos e absolve a solidão do magma

Havia tanto. Há tanto. E tu sabes.


8.40

Eu sonhava com tímpanos furados
e a dor fazia-me crer que o real não era real
e então adormeci.


8.53

Os ciprestes e no seu centro rasgos breves de luz

e a pulsação maior síntona,

e a respiração, a oração sendo.

8.58

A sombra descendo
transmutando-se na própria luz.

13.57

Há palavras com as quais eu choro
Há palavras com as quais eu brinco
Há palavras com as quais eu procuro
 - achar aquilo que nunca perdi e achei perdido.

14.02

Não haviam palavras para dizer -
que eu estava noutro lado
quando o meu corpo estava ali.


sábado, 8 de outubro de 2016




7 de Outubro


Eu tive os meus nervos de súbito envoltos pela possibilidade

Pela imensidão, e não podia acreditar não haver palavras, linguagem material que o falasse, o reunisse , o compreendesse inteligível. Um abismo enorme de luz, uma visão fragmentada feita de mil sentidos amalgamados
Prenúncios, intuição ancestral, abertura, respirar nesse espaço quase sufoca, ver quase cega.
E então fecho os olhos e desço ao mundo dos conceitos,das limitações espaciais e temporais. E há morte aqui, mas é tão concreta, negra, resoluta, que a razão a beija com medo das divagações cósmicas, com medo de não saber tece um saber final, ponto final, como se o céu tivesse final, e a música, e isto de ver, estar aqui quando tudo e resto podia ser paisagem, ilusão.
Só tu sentes que és, profundamente, continuamente, com carne e mais ainda com o espírito. 
Não pude acreditar nos prenúncios que se desenrolavam para lá das palavras escritas, em bifurcações, afluentes indizíveis 

mas o ser soube - que nunca iria saber mas é enorme.
E isso o prende à sua luz.



MF

        to: A e Gamoneda







feriste-me o pulso. eras tu, ele e deus
agora silenciosos como deus

sou só eu
fui sempre só eu

somos sempre só nós connosco a sós
então rogo-me a mim, amo-me a mim.





Chihei Hatakeyama Hakobune - Vibrant Color

Diz-me onde estás e se possível, ( não está em teu poder dizer) 
 - Se é realmente a ti que eu chamo
Estes dias tenho esculpido uma espécie de templo feito de silêncio e céu
Limpei o meu corpo e varri da minha mente a excessiva turbulência que me exilava daqui
Eu pergunto-me se volto de novo a ti porque não tenho deus
E o meu sangue é frágil
Ou está frágil
Eu pergunto-me porque se me assaltam visões proíbidas e se são sinais que podíamos afinal viver
Sem nos matármos

Estes dias pousaram no coração minhas próprias mãos
Pulsava através da pele como uma pássaro aterrado
E então eu vi que era puro
Porque na minha cabeça nasceu
Essa imagem de pássaro

Chorava de não saber o que tinha perdido
E se eras tu quem eu chamava
E o horror que seria se viesses e o vazio não abdicasse do seu trono em mim
E estar vazia contigo seria tão mais vazio que estar só vazia

Hoje o meu sangue é um mar com a memória dormente
Um mar antigo que me ocupa e é ocupado por mim
Eu flutuo nele como no ventre da minha mãe 
Há vinte anos
Não ouvia gritos então. Submersa.
(Não sei quando e onde acordou a vida)

Estou calma como o começo do dia
Manhã límpida, incorruptível
Gelada com o calor simultâneo da Beleza

Gerada de um parto que me deixou prostrada
Muitos dias e muitas noites
Intercaladas com invocações várias
E respirações aliviadas que nunca foram finais
Porque as luas se quebravam então
(Não sei porque engrenagens do coração)

E então fugi e inventei paraísos.

Não me perguntem se quero viver - são tão tácitos os sonhos, as visões, as suspensões que me roubaram cada pergunta sem resposta.

*
(Semi-automática)

Eu afluí no medo e bebi da sombra e da luz. Eu teci contornos indeléveis de promessas dadas ao furor. Eu cantei no magma e nos limites do erro. Eu escalei as estradas que jurei não poder escalar. E no final vi-me eu. No final, vi-me eu. Sem princípio nem final. Aqui. E hoje era uma abertura magna de um universo nascido hoje. Hoje era a oportunidade de nadar entre cada fiapo de luz e amar. Tocar. Adormecer. Escrutinar os sonhos de outra dimensão. Eles falavam em símbolos as respostas que procurava acordada. Eles falavam-me que eu chorava por fazer doer outro corpo que fez doer outro. Eles falavam-me que eu não podia suportar a morte de absolutamente nada às minhas próprias mãos. Por mais impuro que fosse. Por mais humano que fosse, eis a claridade a chegar - Por mais humano que fosse. O cristal, as flores lançadas sobre as lágrimas humanas, fecundam os jardins de deus. Por mais humano que sejas, eu perdoo-te, eu perdoo-me então.

Eu perco-te. E perdes-me o rasto cada vez mais intermitente. Os dias são estranhos.
Sabes–me ainda tocar-me? 
Não me digas o que eu não sei. 
Deixa saber-me. Na luta solitária de uma cavidade densa, eu sei que verei. 

*

Chorarei mais vezes abalada com o meu próprio choro porque eu não chorava, eu não era humana. Ver-me humana. Ver-me humana. “ A coisa mais frágil que conheço”. Não pude sequer despedir-me da máscara. Mas quereria se pudesse? Quando foi tão solidamente máscara. E a pele queimou debaixo dela. E o primeiro suspiro liberto foi um choro. E o corpo não sabia o que fazer dos tremores. O olhar não sabia como se esconder. Era uma vergonha chorar e mais ainda achar que era uma vergonha achar vergonha chorar. Duas vergonhas lado a lado e então escolheu a primeira. E lembrou-se que a vergonha era somente o nome dado pela máscara àquilo que a podia destronar.


*

Suponho que a luz não se tenha dado a mim
Porque eu não podia abandonar de todo a sombra
E na luz não cabe a sombra
Ou não seria luz

Mas na sombra cabe luz,
Em recessos invisíveis
Eu sei que está lá
 Porque volto sem cegar à tona

*

(Defeito essencial)

Dei a minha luz à sombra
e minha sombra à luz
Porque acho que a sombra é também humana.


MF

quarta-feira, 5 de outubro de 2016




Eu vi - a sombra era afinal minha mãe
e as dores de parto sempre antecedem
o milagre de (re) nascer;

Eis que esta dor era bênção
porque me impelia para a luz
e os sonhos e as experiências no mundo
falaram-me - o que eu não era.
e por eliminação de hipóteses talhei
as camadas externas até ao peito,
até mais perto
do núcleo profundo,
imóvel, permanente, de luz

Eu só quis fazer meu próprio templo
(nunca zonas de conforto)
que me bastasse na ausência contínua desse deus
ominipotentemente desaparecido
que invocamos todos
do fundo mais longínquo do silêncio,
turbulência e desamparo

" - Tira-me daqui" , eu disse-Lhe em desespero,
com os músculos ardendo, os pulmões poluídos
o estômago conspurcado
e o coração em espinhos,
" - Tira-me daqui se existes,
ou faz esta noite acabar mais rápido."

E então eu vi - o sentido do seu silêncio e ausência:
ninguém me poderia tirar dali,
ninguém me podia privar da sombra - para poder ser luz.

*

E eu ouvi-me dizer - disciplina-te
para te libertares
que a graça não vem. a graça é.
tens de ser graça
limpa então teu corpo e tua alma.

*

a chuva repartia-se por dentre os ossos
aglomeração de rostos e corpos ébrios

procura de pureza e silêncio
um coração de outra espécie
feito de exaltações silenciosas
euforias lentas ante a Beleza

as pedras também sofriam então
e as cobertas largas da minha inocência
chamavam o teu nome
(pensando que olvidarias o mundo
de cruz e sombra e ruído)

sonhava barcos, paisagens indistintas
um grande salto, grande encontro
de luz e imperturbabilidade humana,

lembrança de Deus inscrita
na minha própria carne.

*

Ser só de mim é tão longe.

*

E no frio da noite atento à
sensação
humana de toque
só o toque me acorda
só o toque me lembra que
o frio não é só da noite

*
Vi as mortes nos meus olhos aguados

eu chorava porque via
a morte nos meus olhos aguados
e estava viva.

*

tenho pesos atrás dos olhos,
prenúncio de sal
se o sal ao menos sanasse,
 - um estremecimento, queimação breve
e por fim a purgação (permanente).

*

não sobra nada a esta hora
de divino.

*

(sonho da estrela do mar)

Dissecava-te em cinco partes e chorava
como se cada corte me doesse também
traçava leve um pentágono
com a navalha
Lancei-te na valeta e olhei para ti -
esperando que sobrevivesses em lágrimas.


*

não sei se o teu abraço está toldado de amor
queria-o despido, nu, não cego mas impelido
para a graça-sombra do meu coração.

esquece o meu corpo.
e o que fizemos com os corpos.

porque eu só quero desaparecer diante ti como mulher
e sobejar somente humana

que clama por um silêncio, ligação à distância

aproximármo-nos desse hiato frio dos interstícios humanos
o mais possível
uma mão, um dedo, uma palavra e já seria muito,

tocando-me além da carne alcançando-me
no meu quarto gelado

nestas catástrofes lentas e aquosas da alma
grávidas de prenúncios densos que nem eu própria sei

(mas são tão reais a esta hora)

só havia céu quando eu era criança?
cheia de sede. era de mais a sede,

(e o coração,
o que se passou com o coração?)

(to p.)

MF





domingo, 2 de outubro de 2016


30 de Setembro


Preciso de saber
podia nunca ter nascido?
(podíamos escolher não voltar a nascer?)

Tu és a coisa em torno da qual te constróis
e então o desapego está
no vislumbre último e
fatal
que te mata -
é quando vês que quem és
não és tu
quem pressentes debaixo da tua pele
quem foge antes da festa começar
quem treme na fonte da lembrança
e então o desapego está
onde te disseram -
tu não és tu.

O núcleo primordial
é tua tábua sensível de criação
confundiste a forma com o núcleo
não te lembras quando voaste?
o teu voo era o voo
de toda a gente que voou
o teu choro de amor foi o choro
de toda a gente que amou
és igual, na tua diferença
és igual, na tua dor mais profunda,
ao lamento do maior homem que viveu.

E vais viver para sempre
até acordares todos os dias.


MF